REFLEXÕES PARA UMA FOTO-EDUCAÇÃO

José Otavio Lobo Name

Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC/BA

 

Resumo: Apesar da enorme quantidade de fotografias produzidas por amadores, estes não se reconhecem como fotógrafos nem tampouco há estudos e formação específicos para este público. Este contexto afeta negativamente processos de conscientização política e pessoal. O artigo se propõe a refletir sobre como atividades de foto-educação podem contribuir para a criação de novas formas de interação entre o indivíduo e seu ambiente.

Palavras-chave: Fotografia amadora, Arte-educação, Consciência política.

 

Neste artigo procura-se compilar algumas considerações acerca da fotografia amadora como um canal negligenciado de comunicação entre o indíviduo e a coletividade. A fotografia universalizou-se de tal forma que pode ser praticada por qualquer pessoa com um mínimo de recursos materiais. A partir da observação de que o enorme volume de fotografias produzidas por amadores não tem servido a um processo de educação visual, nem mesmo contribuído para a inserção do indivíduo como protagonista na experiência de sua própria vida cotidiana, são apresentadas algumas considerações no intuito de formular uma proposta de educação fotográfica de amplo alcance.

Utilizada inicialmente somente por artistas e cientistas, a fotografia popularizou-se enormemente em pouco tempo. No início, após seu anúncio oficial de 1839, as complicações do processo exigiam tempo, paciência, habilidades e conhecimentos específicos. O tempo de exposição era longo; as chapas precisavam ser sensibilizadas e reveladas na hora; o equipamento era pesado e volumoso. Os transtornos eram tantos que a fotografia só era praticada por aqueles que obtinham algum ganho de produtividade, como pintores e gravadores; ou cientistas, que passavam a contar com um novo e valioso instrumento para a observação da natureza. Em 1888 George Eastman lança a Kodak, uma câmera portátil carregada com filme de rolo. O anúncio dizia "Você aperta o botão, nós fazemos o resto". De fato, o fotógrafo apenas necessitava enquadrar e disparar; terminado o rolo de filme, a câmera era entregue à companhia para revelação do filme e era devolvida recarregada com um novo rolo de cem poses. Em cinqüenta anos o processo fotográfico foi de tal forma simplificado que se tornava acessível a qualquer pessoa, mesmo sem conhecimentos técnicos ou artísticos. A fotografia amadora surge no mesmo momento em que a fotografia profissiona estabelece seus padrões técnicos de equipamentos, insumos e resultados (SCHARF, 1986).

            O produto da Eastman Kodak Company provocou na sociedade uma série de fenômenos de ação paralela ao fazer fotográfico em si; hoje em dia o mercado amador de fotografia é tão rentável quanto o profissional, mesmo considerando o poder do mercado editorial. O anúncio de 1888 ecoa até hoje nas lojas de revelação1-hora, tão presentes em toda parte que já nem se repara mais nelas. Há alguns anos a empresa utilizava em suas campanhas a expressão "momento Kodak" para denominar os eventos que as pessoas já se acostumaram a fotografar: reuniões familiares, viagens, formaturas etc.

            As câmeras e técnicas amadoras foram incorporadas ao universo da arte profissional. Artistas como David Hockney, William Wegman, Bruce Nauman, Mac Adams, Nan Goldin entre outros aproveitam a facilidade de manuseio das câmeras, ou ainda a rapidez de resultados da polaroide ou mesmo da revelação 1-hora, mas acima de tudo, apropriam-se do modo amador de fazer fotografia: apontar e disparar (point and shoot).

            No entanto, o grande público não se reconhece fotógrafo; compara negativamente suas imagens àquelas publicadas em livros, revistas e jornais; diz que sua câmera não é boa, por ser amadora. Por estar destituida das qualidades que consagram a grande fotografia, a fotografia amadora só é valorizada pela relação existente entre o espectador e o objeto fotografado.

            Em 1995 inaugurou-se no Whitney Museum de Nova York a exposição intitulada "Talking Pictures". Personalidades políticas e artísticas, profissionais diversos e até uma presidiária foram convidados a repartir com o público uma imagem que consideravam pessoalmente importante. Painéis ao lado das fotografias traziam o relato dos participantes explicando suas razões para a escolha das imagens. Através de um sistema de fones de ouvido os visitantes podiam ouvir tais relatos narrados pelos próprios participantes. As gravações explicitavam o grau envolvimento dos participantes com o projeto: toda a carga emocional presente na escolha de alguns; um certo oportunismo político na de outros. Um dado especialmente interessante é que as imagens eram apresentadas não na forma de reproduções, mas através da forma como cada participante havia tomado contato com elas; havia algumas fotos emolduradas, é certo, mas também revistas, cartões-postais, livros além de snapshots 10x15 cm, formato padrão dos amadores. Esse detalhe chama a atenção por apresentar as fotografias não somente pelas qualidades visuais que elas possuem, mas como objetos, pequenas relíquias produzidas em série. O participante dividia com o público sua resposta ao conteúdo visual da fotografia e também ao objeto-fotografia, este tipo de tesouro que a maior parte das pessoas guarda com especial carinho.

            Os organizadores da exposição afirmam na apresentação que a idéia lhes ocorreu ao se observar o quão desconfortável o grande público se sentia ao visitar museus e galerias, e a incerteza no seu jeito de apreciar arte. Parece paradoxal que a enorme quantidade de imagens oservadas diariamente nos meios de comunicação de massa, mais suas fotos de amigos e viagens não tenham dadoo ao amador uma intimidade maior com a fotografia e com as manifestações visuais em geral. Pelo contrário, o fosso entre o grande público e o universo das artes plásticas parece maior do que nunca. A relação do fotógrafo amador com suas fotos é extremamente emocional, ligada primeiramente à sua relação com o objeto fotografado, e não com os elementos de comunicação visual, ou a inserção da fotografia como forma de expressão de sua vida. É irônico perceber que historiadores têm se valido de fotografias amadoras para uma maior compreensão da vida de gerações passadas, masos produtores destas imagens não se dêem conta do valor que elas podem ter na construção de sua própria hisória de vida e de sua visão do mundo.Uma coleção particular de fotografias familiares é uma riquíssima enciclopédia visual sobre os universos materiais e espirituais do indivíduo, revelando, ainda que de forma às vezes obscura, seus múltiplos aspectos de relacionamento com o mundo.

            Em "A camara clara" Roland Barthes (1984) investiga suas relações com esse substantivo concreto, a fotografia, ou simplesmente foto. Seu interesse não é pelo meio de expressão, seja objetiva ou artística, mas pelo misto de fascínio e familiariedade com que a maior parte de nós lida com as imagens do cotidiano. Logo de início ele estabelece seu objeto: as fotografias que lhe são importantes, tornando-se a referência para o estudo; e observa que qualquer relação com o objeto-fotografia deverá ser de um dos três tipos: o indivíduo pode ser o fotógrafo, o espectador, e/ou o objeto da foto. Diferentemente do que ocorre com fotógrafo profissional, é mais comum o amador exercer simultaneamente cada um desses papéis.

O desenvolvimento da técnica fotográfica, no século 19, é em geral apresentado como uma extensão das técnicas e paradigmas da pintura renascentista. A própria câmera fotográfica nada mais é que uma variação da camara obscura, aparelho que permite a precisa planificação dos aspectos visuais de uma cena. A perspectiva criada através de um único ponto de observação (o olho e a lente) planifica as dimensões do espaço e do tempo, produzindo uma imagem bidimensional de um instante a partir do continuum tridimensional da realidade; mas, principalmente, produz uma imagem organizada (planificada) segundo os critérios de uma perspectiva idealista da realidade. A percepção visual da realidade é, por paradoxal que pareça, multisensorial; a fotografia apresenta então uma leitura visual, um recorte impregnado pelas concepções pessoais do fotógrafo, assim como o faz a pintura renascentista.

            A imagem, para Platão, é representação - um obstáculo ao verdadeiro conhecimento. Este deve referir-se àquilo que é (a essência), o que só pode ser apreciado no mundo das idéias. A representação da realidade torna-se uma camuflagem enganadora. O sentido da pintura renascentista é o mesmo, mas com direção oposta: a imagem é a apresentação esquemática do ideal, a sua codificação. A arte da renascença surge simultaneamente à ciência moderna, ambas apoiadas na crença de que a realidade pode ser inteiramente revelada ao conhecimento.

Embora a fotografia tenha contribuído muito para o aparecimento de manifestações artísticas que irão contestar essa crença (assim como a especulação científica viria a contestar o conceito de uma realidade idealmente fixa, seja nas ciências naturais ou nas humanas); embora o universo temático da expressão artísitica tenha evoluído da idealização coletiva para a significação individual; embora a figura do artista-autor tenha se expandido tanto na arte moderna a ponto de praticamente substituir a obra no espaço da apreciação pública; e finalmente, embora a pintura e a escultura, junto com outras técnicas artísticas, tenha se distanciado quase totalmente da representação, passando a referir-se somente a seu próprio universo, a atual produção fotográfica de massa segue ainda alguns dos paradigmas da Renascença.

Define-se aqui como "produção fotográfica de massa" o material visual produzido por razões mercadológicas, não autoral, esmo que se reconheça no trabalho algum esforço expressivo. Na categoria incluem-se cartazes de propaganda, anúncios de revistas, editoriais de moda ou turismo etc. A fotografia opera a fixação do que é ausente; o instante desaparece no passado, restando apenas o registro de sua aparência. O principal traço de união entre as imagens dos meios de comunicação de massa é que o instante cuja aparência observamos jamais existiu, tratando-se de uma simulação de determinados valores (juventude, erotismo etc.) voltados à indução do consumo. Deste paradigma não escapa grande parte da produção fotojornalística, cuja função é provocar no espectador não a observação de fatos acontecidos, mas a reafirmação de um discurso político pré-definido.

A imagem torna-se mais que real porque a natureza é reduzida à aparência da aparência. A duplicação obsessiva das imagensnos afasta dos referentes, purificando até a alucinação nossa experiência de qualquer uma das representações. (...) A realidade passa a ser secundária em relação à imagem que a reconstitui enquanto simulação. A experiência é de uma irrealidade vertiginosa que nem sequer chegamos a admitir. (NEIVA JR, 1994, p. 74).

 

            O papel desempenhado pela fotografia na formação de processos contemporâneos de observação, conhecimento e controle sociais tem sido abordado por diversos autores que apresentam, em geral, um estado de passividade do indivíduo face ao poder dos que controlam os meios de produção e processamento de imagens. Flüsser (1998), ao diferenciar a câmera fotográfica dos demais instrumentos de trabalho tratando-a como o primeiro "aparelho de idéias" observa que a relação do indivíduo com este aparelho não pode mais ser julgada do mesmo modo que a do trabalhador com os meiso de produção, ou seja, não cabe uma análise de corte marxista, por exemplo, na análise das relações de poder incluídas na atividade fotográfica. No entanto, a atividade apresenta um tipo de equipamento cuja própria formulação define o universo das possibilidades de seu uso;

Se considerarmos o aparelho fotográfico sob tal prisma, constataremos que o "estar programado" é o que o caracteriza. As superfícies simbólicas que produz estão, de alguma forma, escritas previamente ("programadas, "pré-escritas") por aqueles que o produziram. As fotografias são realizações de algumas das possibilidades inscritas no aparelho. (p. 43)

Mais dos que a reprodução de aparências o que a fotografia fornece é a reafirmação de conceitos sobre a realidade pré-definidos, numa atualização visual de modelos de organização social. Assim como asrelações sociais são dinâmicas, as imagens se diferenciam em sua aparência e significado, deixando entrever, o entanto, o jogo de regras (ou as regras do jogo) aplicadas em sua produção.

Em uma análise sobre a utilização de técnicas cinematográficas nos conflitos do século 20, Paul Virilio  observa que estratégias militares de vigilância e inteligência vem sendo progressivamente aplicadas no cotidiano. Ele não se refere apenas ao uso de câmeras de segurança ou de passes eletrônicos, mas também à exposição do indivíduo a um msistema de controle baseado na apropriação de sua imagem como forma de dominação do corpo e da mente. Não é necessária a vigilância direta dos cidadãos se estes já são convencidos a se mostrar através de uma determinada imagem. Como uma anti-camuflagem, a aceitação passiva de um modelo visual implica na exposição constante de sua condição de "prisioneiro de guerra".

Observa-se então um processo de crescente alienação do indivíduo com relação ao mundo de aparências que o cerca. As definições sociais de homem, mulher, prazer etc.  difundidas visualmente são inatingíveis como objeto de desejo, e como modelos de aparência causam o desconforto na inapropriação, da fraude. Como uma doença social, a desapropriação da aparência provoca, além da frustração individual, a desagregação social e a violência, pelo fato de o sujeito identificar-se com o modelo visual, e não com seus pares. Os valores sociais, responsáveis pela organização das relações de trabalho, família etc. são substituídos por valores individuais, como beleza, luxo, juventude.

Qual poderia ser uma forma de reação do indivíduo a esse processo de alienação? Como a sociedade pode garantir a manutenção dos valores sociais ligados à construção da imagem individual? Que tipo de filtragem se pode fazer na poluiçaõ visual contemporânea? Parece ser fundamental o estabelecimento de alguma forma de conscientização ampla sobre os fenômenos resultantes deste processo de apropriação da imagem. A formação da consciência coletiva, no nosso meio, passa necessariamente pela educação. É evidente que esforços de aumento da qualidade do ensino devem trazer uma melhora na consciência crítica dos cidadãos. Mas identificamos a necessidade particular de formação de uma crítica visual coletiva, paralelamente à difusão dos meios de produção imagética entre a população. Pode-se esboçar assim, a criação de mecanismos de divulgação da técnica e da linguagem fotográficas, bem como provocar o exercício da crítica à produção visual de massa.

Atualmente a maior parte da informação circula na forma visual, através da produção fotográfica de massa , em detrimento da escrita e da fala. Não custa repetir que nesse processo o cidadão comum se insere como espectador passivo, já que os "mass-media" têm um poder de produção de imagens muito superior ao dele. Os jovens se encontram especialmente vulneráveis a esse bombardeio visual, numa fase em que enfrentam o desafio da construção de suas identidades. Por parecerem mais sofisticadas, as imagens se tornam mais sedutoras que a realidade. No Brasil a produção do conteúdo visual é monopólio quase esclusivo do litoral sudeste, quadro que enfraquece a diversidade regional e a própria cidadania.

            Paradoxalmente, nunca foi tão fácil para este mesmo cidadão produzir imagens. Embora ainda seja uma atividade de custos proibitivos para boa parte da população do país, nunca foi tão barato também. A manutenção de um laboratório preto-e-branco simples ou a utilização de laboratórios 1-hora não têm custo muito elevado, considerando as possibilades expressivas do meio.

            Embora o mercado editorial apresente um número razoável de livros dedicados à fotografia (a maioria estrangeiros e mal adaptados à realidade brasileira), não existe nenhuma literatura realmente didática no gênero. Os livros sobre fotografia – geralmente intitulados “manuais” – limitam-se à apresentação de técnicas e equipamentos, de uma maneira pontual, sem prever o gradual desenvolvimento do estudante de fotografia. Apenas para ilustrar este ponto de vista, nenhum manual de fotografia leva em conta a idade ou o grau de escolaridade do leitor, ou que aspectos da fotografia ele pretende explorar. Devido à ausência de metodologia didática em fotografia, o estudante brasileiro é freqüentemente obrigado ao auto-didatismo. Neste caso, baseado no empirismo da tentativa-e-erro, os custos do estudo se tornam em geral proibitivos, tornando a expressão fotográfica uma exclusividade das classes mais abastadas da sociedade.

            O ensino de fotografia concentra-se em determinados cursos de graduação, e em poucas e privilegiadas escolas de ensino médio. Esse quadro é de certa forma contraditório, considerando a importância que a expressão visual adquiriu na educação nos dias de hoje - seja no espaço institucional, seja na formação geral do indivíduo através dos meios de comunicação de massa. No momento, o uso de tecnologia fotográfica em educação é feito através da exibição de vídeos, slides ou transparências, sem a participação do aluno no processo, reforçando sua posição de espectador passivo. O entusiasmo com que se adotou o computador e a internet como auxiliares educacionais não encontra paralelo no uso de técnicas fotográficas.

            Mesmo no campo da arte-educação a fotografia tem sido negligenciada. A imagem fotográfica é em geral utilizada como matriz (a foto impressa, pronta, como ponto de partida para uma intervenção) e quase sempre vem da mídia, ou seja, não foi realizada pelo estudante ou pelo professor, e sim publicada na imprensa. Em crianças no início da fase escolar já foi observada a grande influência das imagens da imprensa e da televisão em seus trabalhos de desenho e pintura. Por ser encarada muitas vezes como uma técnica de "captação" visual da realidade, a fotografia não tem tido as suas possibilidades de expressão e de trabalho manual devidamente exploradas. A captação da imagem pela câmera é apenas uma das etapas do processo fotográfico. É justamente no trabalho de laboratório que a fotografia mais se aproxima da pintura e da gravura, com a manipulação da imagem no papel. É nesse ponto que se precisa contar com instalações minimamente adequadas (o quarto escuro), o que a maioria das escolas não possui.

            Experiências anterirores no ensino de fotografia para amadores, com o uso de câmeras compactas de poucos recursos, permitiram perceber as possibilidades que a atividade fotográfica pode oferecer. Ela pode servir como importante forma de expressão às pessoas que apenas desejam fotografar a família e os amigos. Os fotógrafos amadores muitas vezes se sentem intimidados com uma possível comparação de suas fotos àquelas realizadas profissionalmente; e freqüentemente alimentam o desejo de imitar uma imagem conhecida. Aos poucos pode ser desenvolvida neles a confiança em seu olhar como instrumento de expressão, e devolvida a importância de suas fotografias familiares em comparação às fotografias profissionais.

            Como pontificado por Fayga Ostrower em "O universo da arte" o mais eficaz no ensino é ter como ponto partida a experiência de mundo dos estudantes, o seu universo. A partir daí se pode apresentar diferentes visões e se propor uma reflexão e uma aprendizagem. Assim trabalham, em circunstâncias diferentes, Paulo Freire na educação de adultos, e Nise da Silveira, com internos psiquiátricos, por exemplo. Com a fotografia acontece um fenômeno paradoxal: é uma atividade presente na vida de uma grande parte da população, que registra as festas de aniversários, os encontros e os passeios, mas não reconhece nessa atividade uma expressão (e documentação) de suas vidas e de seu espaço geográfico. A educação fotográfica pode, então, não somente desenvolver as possibilidades expressivas do fazer fotográfico cotidiano, mas também possibilitar a documentação familiar e comunitária. Através da expressão fotográfica e do exercício de análise de imagens é possível suplantar algumas deficiências na escrita e na leitura. A prática fotográfica propicia também um olhar mais crítico sobre os valores apresentados na comunicação visual de massa.

A arte-educação no Brasil evoluiu bastante nos últimos 20 anos. Acompanhando uma tendência mundial, a preocupação dos educadores brasileiros não está na formação exclusiva de artistas, ou mesmo de público freqüentador de museus. A ”Proposta Triangular" de Ana Mae Barbosa apresenta um modelo de educação artística calcado em três práticas: a criação, a leitura e a contextualização. Tais vertentes possibilitam tanto o desenvolvimento de talentos e habilidades individuais como a interpretação pessoal de obras de arte e a compreensão do papel histórico desempenhado por determinados artistas, movimentos e obras de arte. Dessa maneira, educação artística é incluída no currículo escolar como importante instrumento para a compreensão do mundo, análise dos fatos cotidianos e expressão pessoal de idéias e sentimentos.

Coincidentemente ou não, os três vértices do triângulo de Ana Mae Barbosa apontam quase diretamente para as relações indivíduo-fotografia propostas por Barthes. Um modelo de difusão da prática fotográfica pode, então, ser baseado na observação destas três formas de relação e através de práticas que contemplem o fazer, o olhar e o contextualizar.

Não se trata aqui apenas da criação de cursos de formação em técnica fotográfica, embora esta seja uma parte importante do pocesso de conscietização visual. O ponto principal está em fornecer ao indivíduo um instrumento de inserção positiva no quadro social. A educação fotográfica pode se realizar em diversos níveis, que vão do seu uso como instrumento auxiliar à educação formal até uma formação profissional completa, passando por processos de auto-reconhecimento das possibilidades de expressão do meio. Paralelamente a isso, existe um crescente mercado de trabalho nas funções técnicas de fotografia, cinema, vídeo e computação gráfica, ainda restrito às camadas privilegiadas da população que podem arcar com os custos de um aprendizado formal em fotografia; este mercado pode e deve servir ao todo da população como legítima forma de ascenção social.

Amadores com freqüência procuram desenvolver sua capacidade fotográfica através de cursos técnicos e/ou da aquisição de um equipamento mais sofisticado, semi-profissional por vezes. Buscam uma evolução na direção de modelos de fotografia valorizados mercadologicamente, como o nu artístico, a publicidade e o fotojornalismo. O retrato de um ente querido passa a só ter valor se enquadrado as normas clássicas do retrato. Como já foi dito, estas normas seguem padrões oriundos da arte renascentista, talvez inadequados para uma expressão individual contemporânea. Se buscar ajuda nos manuais de fotografia, o fotógrafo amador irá encontrar as regras clássicas de composição e iluminação. Embora possam oferecer alguma satisfação estética a seu autor, imagens amadoras produzidas segundo as normas clássicas irão constituir-se apenas como imitação kitsch, sem trazer nenhuma real contribuição do indivíduo ao diálogo entre imagens. Isso não quer dizer que se deva negligenciar totalmente este tipo de criação. Por ser a forma de proução visual dominante, é necessário que se exponha ao indivíduo os mecanismos de sua criação, permitindo a formação de uma análise crítica desta produção.

Pode-se elaborar, então, diferentes tipos de exercícios de educação fotográfica voltados a diferentes grupos, definidos por idade, escolaridade, meio ambiente, objetivos expressivos etc. deve-se partir da constatação de que a fotografia já é praticada pelas pessoas, que talvez apenas não tenham consciência completa de suas possibilidades expressivas. Não é o caso, então, de se levar as pessoas para um mundo de fotografias técnicas, profissionais, e sim revelar a elas o potencial que se esconde nas imagens que elas atualmente já produzem, e fornecer elementos para o desenolvimento de uma expressão pessoal.

Uma idéia que aparece é a de provocar o conhecimento de um grupo acerca do ambiente e das relações que o cercam através de fotografias realizadas com câmeras de poucos recursos. Trabalhadores de uma usina, por exemplo, recebendo algumas orientações e divididos em grupos temáticos, poderão descobrir diferentes aspectos de seu local de trabalho como arquitetura, ergonomia, hierarquia, realções pessoais etc. através das imagens poduzidas por cada grupo. esta atividade poderá promover - além da "descoberta" de relações sociais veladas ou pouco percepíveis - processos de auto-conhecimento dos participantes, com conseqüências positivas na auto-estima e qualidade de vida. Para tanto, não é necessário muito mais que os instrumentos já presentes na maioria dos lares.

A vida urbana contemporânea colocaconstantemente os cidadãos em um estado de ansiedade com relação à formação profissional e mesmo ao crescimento pessoal e espiritual. Cursos de idiomas, computação, marketing, feng-shui, meditação, ginástica. Essa necessidade de constante educação, ao invés de contriuir para um estado de conscientização do indivíduo, provoca nele a realização de uma auto-imagem negativa, sempre em débito com o modelo de agente nso mecanismos socias, impotente em relação às demandas do mundo. A atividade fotográfica amadora, embora mais ou menos universalizada, não é vista como parte desta processo, constituindo-se num apêndice a outras atividades como festas e viagens.

Este trabalho não pretende esgotar a questão; apresenta, pelo contrário um primeiro esforço de construção de práticas de conscientização e ensino utilizando-se materiais, técnicas e paradigmas da fotografia amadora.

Abstract: Amateur photographers do not recognize themselves as image creators although a great amount of pictures are produced by them; neither there are any studies nor specific teaching for this audience. The situation has a negative effect on political and pesonal conscietization. The article discusses on how photo-education activities may contribute to new forms of interaction between individuals and their surroundings.

Keywords: Amateur photography, Art education, Political consciensiousness.

BIBLIOGRAFIA:

 

BARBOSA, Ana Mae (org.). Arte-educação: leitura no subsolo. 2 ed. revista. São Paulo: Cortez, 1999.

BARTHES, Roland. A câmara clara. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio D'Água, 1998.

SCHARF, Aaron. Art and photography. London: Penguin Books, 1986.

WEBER, Eva. Pioneers of Photography. Greenwich: Smithmark, 1995.