Múltiplas leituras de uma visita histórica

José Otavio Lobo Name

Apresentado na mesa redonda “As Interfaces do Patrimônio Cultural” durante o XV Ciclo de Estudos Históricos “História, Memória e Patrimônio

UESC – outubro de 2004

 

 

Em fevereiro deste ano, a passeio pelos arredores de Curitiba, conheci a pequena cidade de Lapa, a 70 km da capital paranaense. A cidade surgiu no século 18 como um ponto de parada no caminho dos tropeiros que levavam o gado do Rio Grande do Sul para São Paulo. Por coincidência, minha visita se deu no fim de semana em que se comemorava o feriado municipal mais importante, em homenagem ao episódio histórico conhecido como o cerco da Lapa. Gostaria de aproveitar as lembranças desta visita para propor algumas reflexões sobre a fotografia como patrimônio histórico e cultural.

A história ocorreu há 110 anos. Insatisfeitos com o governo centralizador dos primeiros anos de nossa República, revolucionários federalistas foram tomando cada uma das cidades da rota dos tropeiros e haviam chegado a Curitiba no início de 1894. Os habitantes da Lapa, apoiados pelo exército legalista, organizaram a defesa da cidade, mas as tropas federalistas eram maiores e melhor equipadas. Então, após um cerco que durou 26 dias, a cidade sucumbiu ao ataque dos revoltosos. Casas foram saqueadas e famílias inteiras sucumbiram sob o fogo dos federalistas. O episódio deixou profundas marcas na cidade e em sua população.

Mas o que me faz trazer este episódio à reflexão aqui é o modo como a história me foi apresentada em minha rápida visita à cidade. Há dois museus relativos ao episódio, o de Armas e o da Cidade (além do Museu dos tropeiros e o da família Lacerda); há um majestoso Panteão dos Heróis, erguido dez anos depois do cerco, onde estão sepultados os combatentes, guardado por um destacamento do Exército Brasileiro; próximo a este, alguns quarteirões reformados preservam a arquitetura da época, e a cidade como um todo mantém a organização urbana e parte do casario da época do episódio; e, principalmente, há a narrativa do episódio, conhecida por todos os habitantes com os quais tomei contato (uma encenação das batalhas é feita pelas crianças como parte das comemorações).

É como se a narrativa do episódio se realizasse em diversas instâncias, cada uma com diferentes níveis de objetividade. Destas instâncias, gostaria de destacar três que considero principais:

A primeira diz respeito aos objetos remanescentes da época, incluindo os casarões que serviram como quartel-general e como hospital improvisado. Nos museus pode-se ver as perfurações de bala no espaldar da cama onde foi morta uma família, e também o leito sobre o qual sucumbiu o maior líder dos defensores, o Gal. Gomes Carneiro, entre outras relíquias, como armas, roupas e objetos pessoais. Estes objetos são legítimas relíquias, pois foram utilizados pelos principais personagens do evento nos seus momentos cruciais. Relíquias como essas são portadoras de narrativa histórica, pois através de sua observação podemos conhecer os usos e costumes de uma época, seu estágio tecnológico; seu significado, porém só se realiza dentro de um determinado contexto. Para que uma cama ou outro objeto adquira status de documento histórico é necessário que alguma convenção certifique sua autenticidade e sua importância no episódio histórico. Analisando deste modo, verificamos que, por exemplo, uma cama qualquer do século 19 nos informa sobre aspectos gerais de nossa sociedade; alguma cama remanescente do cerco poderá nos trazer informações sobre a batalha; mas uma cama reconhecida oficialmente como o leito de morte do personagem principal nos permitirá reconstituir mentalmente como ocorreu o episódio. O potencial narrativo das relíquias depende, então, diretamente do valor que lhe é conferido por uma narrativa externa autorizada.

Outra instância é a narrativa do episódio, baseada principalmente no diário de batalha do ajudante de ordens do Gal. Gomes Carneiro e em outros documentos, como o termo de rendição da cidade. Esta narrativa é mantida também como tradição oral, profundamente entranhada no imaginário dos habitantes com os quais tive contato, e serviu de inspiração para algumas pinturas e desenhos que ilustram os fatos. As narrativas escritas e orais trazem uma riqueza de detalhes superior a dos objetos de época; a língua é a forma mais complexa de comunicação que pode ser executada por um indivíduo sem artefatos. Ao mesmo tempo em que é totalmente apoiada na convenção das regras de linguagem, a narrativa oral é extremamente subjetiva. Isto obriga o historiador a se cercar de evidências que corroborem o relato, além de colocar a veracidade da narrativa sob constante suspeita.

Finalmente, há uma boa coleção de fotografias realizadas nos momentos de relativa calmaria durante os 26 dias de cerco. Nelas pode-se ver as feições dos principais defensores da cidade e de alguns federalistas e observa-se o estrago que os canhões dos atacantes fizeram na cidade. As limitações dos processos fotográficos da época não permitiram que fossem feitas imagens das batalhas propriamente ditas; no entanto, há imagens que registram as perfurações de balas nas paredes, o desgaste físico e emocional dos envolvidos e a fisionomia dos personagens. Mesmo cercado de relíquias e relatos de todo tipo, pude experimentar a sensação de presença fornecida pelo registro do olhar de 110 anos atrás. Sintomaticamente, no meio de tanta informação sobre o cerco, nenhum dos museus da cidade informa quem foi o autor das fotografias.

Desde o seu aparecimento a fotografia vem exercendo um importante papel no registro histórico. A imagem formada na chapa fotossensível é um resquício inquestionável da ação dos raios de luz no momento da realização da fotografia. Como os fósseis, são um resíduo de uma ação ocorrida no passado que nos é dada à observação no presente. Sabemos objetivamente que os raios luminosos oriundos de um objeto atingiram a superfície da chapa num determinado momento, registrando sua aparência. Mesmo quando a cena a ser fotografada é sabidamente armada, podemos ter certeza de que a foto registra um fato realmente acontecido (a armação).

A riqueza de detalhes deste registro (incluindo os registros não intencionados ou previstos) permite que dele sejam extraídas numerosas e complexas informações. Essa mesma riqueza irá permitir, ao mesmo tempo, o surgimento de uma linguagem igualmente complexa, cheia de expressão e subjetividade.

As fotografias possuem então características de relíquias, por serem efetivamente um objeto oriundo do passado; e de subjetividade, por refletirem a vontade do fotógrafo, a limitação técnica e as convenções sociais. São documentos que permitem diversos níveis de leitura. Transitando entre o registro automático e físico de um momento e as inúmeras possibilidades expressivas da linguagem, a fotografia é ao mesmo tempo objeto e narrativa. As fotos transmitem desse modo as mais variadas informações sobre os modelos, os objetos, os fotógrafos, as técnicas, os hábitos as intenções e o modo de pensar do grupo que as produziu. Seu estudo irá permitir o conhecimento de aspectos sociais, psicológicos, econômicos, estéticos da sociedade, paralelamente aos aspectos visuais específicos das cenas registradas.

O filósofo Villém Flusser afirma ser a fotografia a primeira máquina de idéias. Então deve ser isso: o mais significativo elemento retratado e uma fotografia é uma idéia representada no momento da foto. A fotografia registra, mais do que aparência de uma época, o modo de pensar do povo que a produz.